POLÍTICA CAMBIAL E MACROECONOMIA DO DESENVOLVIMENTO
Paulo Gala
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Numa das referências importantes da literatura, Gelb (1988) discute o caso de
países que teriam sofrido desse mal nos anos 80 devido às altas reservas de petróleo.
Analisa os resultados do choque do petróleo para seis economias com abundância desse
recurso: Indonésia, Algéria, Equador, Nigéria, Trinidad e Tobago e Venezuela. O autor
constrói um índice capaz de medir os efeitos da “Dutch Disease” em cada uma dessas economias
a partir da evolução de seus setores de bens comercializá veis não vinculados ao
petróleo após os choques. Nigéria e Trinidad Tobago apresentam os piores resultados com uma
elevada apreciação cambial no período 1974-1978 até 1984. Algéria, Venezuela, Indonésia
e Equador têm resultados melhores. Os três primeiros países teriam conseguido
manter o setor de bens comercializáveis não ligado a petróleo razoavelmente intacto no
período, apesar de que na Algéria e Venezuela a representatividade deste tenha sido
sempre muito pequena. O destaque da amostra fica com a Indonésia que conseguiu, via
desvalorizações cambiais, manter o dinamismo de seu setor de comercializáveis não petrolífero (Gelb
1988, pg.90).
No caso da Nigéria, os recursos provenientes das vastas reservas de petróleo
foram mal utilizados e acabaram por prejudicar sua trajetória de crescimento. O petróleo
foi descoberto em 1956 e as exportações para o mercado mundial começaram em 1958. Já
nos anos 70, 50% das exportações de “commodities” nigerianas eram de petróleo,
apesar de a agricultura representar ainda a principal atividade do país com um percentual de
40% do PIB não relacionado ao petróleo e o emprego de 70% da força de trabalho. No
final dos 70, as exportações não relacionadas ao petróleo quase desapareceram como
consequência do choque de preços. O tamanho do setor mineral passou de 1% do PIB nos anos 60
para 25% nos 70 e, em 1979, a exportação de petróleo passou a representar 90% do total de
exportações do país. O setor de agricultura regrediu fortemente enquanto o
governo concentrava os recursos originários das receitas de petróleo no setor de não comercializáveis, extremamente carente à época (Gelb 1988, pg.227).
Ao longo dos dois choques do petróleo observa-se uma intensa apreciação do
câmbio real nigeriano. O aumento de demanda interna resultante do acréscimo das rendas de
exportação de petróleo resultou em persistente aumento da inflação nos anos 70. Devido às
restrições às importações e uma oferta de bens alimentares inelástica, os preços subiram de
forma acelerada. A taxa de câmbio nominal atrelada a uma cesta de moedas de parceiros
comerciais conjugada com uma inflação média da ordem de 20% ao ano entre 1973 e
1978 resultaram num câmbio real fortemente apreciado. Segundo os cálculos de Gelb
(1988), a taxa real saiu de uma posição de 100 na média 1970-1972 para 287 em 1984. A
resposta do governo nigeriano foi primordialmente o aumento de tarifas de importação como
tentativa de proteção da indústria doméstica. Em meados dos 70, as exportações não ligadas
ao petróleo já eram praticamente insignificantes, caindo em 1982 para 1/7 de seu
valor em 1973 (Gelb 1988). A Nigéria passou a ser uma importadora líquida de bens
agrícolas a partir de 1975. As importações totais do país aumentaram intensamente no período
19751978 e 1980-1982.
Um contraste importante em relação à Nigéria é o caso da Indonésia, igualmente
rica em petróleo, mas que soube administrar seus recursos de forma racional. Foi capaz
de desenvolver um dinâmico setor de bens comercializáveis na agricultura e em
manufaturas para exportação em paralelo à indústria petrolífera. Diferentemente da Indonésia,
onde os fundos do petróleo foram também utilizados para investimentos na agricultura que
prosperou durante e após o choque, o setor agrícola colapsou na Nigéria. A
apreciação cambial decorrente do aumento de preços internos foi intensa e o governo não
tomou nenhuma medida com o objetivo de realinhar o câmbio real. As atividades
produtivas foram, em sua maioria, redirecionadas para produção de petróleo e de não
comercializáveis.
O caso da Noruega também é ilustrativo. O país ocupa hoje a posição de grande
exportador de petróleo no mercado mundial. Após a descoberta de reservas no mar do norte em
1969, havia grande possibilidade de contração da “Dutch Disease”. Várias medidas foram
tomadas com o intuito de evitar os potenciais problemas decorrentes da doença.
Dentre estas, destaca-se a boa administração dos recursos provenientes das exportações.
A criação de um fundo no exterior para utilização das divisas e o pagamento de dívida
externa isolaram a economia norueguesa dos problemas decorrentes de apreciação cambial e
perda de competitividade (o “Petroleum Fund ” tinha reservas equivalentes a 50% do PIB
norueguês no início dos 2000). Em termos de mudanças estruturais na economia norueguesa, alguns autores identificam uma pequena retração do setor de
comercializáveis manufatureiro após a descoberta das reservas. Outros trabalhos argumentam que
essa mudança foi mínima e praticamente irrelevante. Larsen (2004, pg.12) mostra que a
participação de receitas de petróleo no PIB se estabilizou rapidamente e a
Noruega não transitou para um perfil de excessiva dependência em relação às rendas do
petróleo. Nos 20 anos subseqüentes à descobertas do mar do norte, a Noruega apresentou maiores
taxas de crescimento do que Dinamarca e Suécia, dois países que poderiam ser tomados como
grupo de controle na comparação do desempenho norueguês (Larsen 2004, pg. 10).
Seguindo esta literatura empírica, Sachs e Warner (1995) elaboraram um dos
primeiros estudos econométricos com fortes evidências em relação à existência do problema
de “Dutch Disease”. Apresentam um estudo empírico que procura relacionar taxas de
crescimento do PIB com exportações de recursos naturais. Analisando a relação
entre taxas de crescimento per capita e porcentagem de recursos naturais na pauta de
exportações de vários países no período 1971-1989 chegam à conclusão de que economias
abundantes em recursos naturais apresentaram, na média, menores taxas de crescimento per
capita. Na escolha do índice que melhor reflete o impacto da presença de recursos naturais
no desempenho dos diversos países, os autores trabalham com várias medidas:
porcentagem de produção de minérios em relação ao PIB, porcentagem de exportações primárias
sobre o total de exportações e um índice de área por habitante ou abundância de terras.
O índice preferido pelos autores é a participação de exportações de recursos naturais no
PIB, que dá uma idéia do tamanho do setor de comercializáveis baseado nesses recursos, além
de conter menor probabilidade de erros de medida. Em análises de “cross-country”, Sachs e
Warner (1995) controlam os efeitos desse índice sobre as taxas de crescimento per
capita por medidas de abertura econômica, qualidade da burocracia, desigualdade de renda,
variação nos termos de troca e renda per capita inicial para chegar numa relação inversa
entre exportações de recursos naturais e crescimento.
Originalmente desenvolvido para ressaltar os efeitos negativo s da abundância de
recursos naturais no crescimento de determinadas economias, o conceito de “Dutch Disease”
vem sendo mais recentemente aplicado para a análise de casos de sobrevalorização
cambial puros. Williamson (2003) chama a atenção para o problema ao definir o
“development approach” para a administração cambial como já destacamos. A manutenção de um
câmbio permanentemente competitivo teria como principal objetivo estimular a construção
de uma indústria de manufaturas comercializá veis voltadas para o mercado
internacional. A diferença na proposta de Williamson (2003) é que a apreciação cambial pode se
instalar por outros motivos que não uma abundância de recursos naturais. Williamson
generaliza, portanto, o argumento presente na literatura de “Dutch Disease” para casos de
excessiva apreciação cambial de qualquer natureza. Franco (2000) destaca “Dutch Diseases”
puramente fina nceiras que seriam decorrentes de excessivos fluxos de capital.
Segundo o autor, esses casos de “capital bonanza” seriam ainda piores do que os casos de
“commodities bonanza” já que os déficits em conta corrente causados pela
apreciação cambial decorrente dos fluxos financeiros seriam difíceis de se reverter nos
casos de interrupções abruptas de financiamento (Franco 2000, pg.44).
Casos de “Dutch Disease”